quarta-feira, 26 de outubro de 2016

MAGNIFICAT



MAGNIFICAT


Rubens César Baquião

09/12/2003




I – A NATIVIDADE


Maria, de Nazaré, lamenta a infeliz sina que lhe pesa. Desejosa de ter um filho, tal sonho lhe é impossível. O problema não está em seu marido José, mas nela. Maria amaldiçoa em alta voz seu ventre estéril:


Entranhas inúteis!!!
Vaso defeituoso é meu útero, 
imprestável sou entre as mulheres! 
Ignóbil Destino me escolheu
como símbolo de zombarias.
Ao meu redor mulheres frutificam, 
árvore seca de vida sou.
Ah Galiléia!
Ah Deus!!!
Conserta teu erro, criador,
remova a praga deste corpo debilitado!


José ouve a imprecação da esposa enquanto o pó da mesa serrada cobre-lhe os olhos. O carpinteiro, às lágrimas, roga ao criador:


Deus, Deus, Deus!
Oh Deus!
Perdoa essa infeliz.
Ah, barriga inservível!
Ah! Fêmea revoltada! 
Deus, Deus, Deus! 
Oh Deus!
Perdoa essa infeliz.
Dá pra ela um remédio,
alimenta essa furiosa. 
Deus, Deus, Deus!
Oh Deus!
perdoa essa infeliz.



Deus, cochilante em seu alto trono, desperta aos apelos de José. Assustado, o criador pensa em um meio de consertar seu erro, pois essa mulher é ousada, ela critica abertamente o nome do todo-poderoso, é possível que ela leve o povo a uma rebelião, é melhor contê-la imediatamente. Diante do trono, um anjo costura uma túnica que rasgou nas bordas de uma estrela. Deus ordena:


Anjo, arcanjo ou serafim, 
o que quer que sejas,
à terra descerás. 
Da mulher rebelde 
a fúria aplacarás.
Dize a Maria o seguinte:

“Fêmea estéril, acalma-te.
O todo-poderoso me enviou, 
teu ventre ele encherá. 
Embora estejas em dor, 
grande alegria receberás.
O próprio Criador 
a ti visitará.
Alegra-te Maria, alegra-te! 
O filho de Deus à luz darás! 
Grandes nações ele regerá!
Aguarda Deus, 
aguarda o Criador, 
breve a ti ele virá!
Alegra-te Maria, alegra-te!”

Anjo, arcanjo ou serafim, 
o que quer que sejas,
é esta a mensagem que enviarás. 
Agora, parte depressa,
e sê fiel às minhas ordens.



Com a túnica rasgada, o anjo apressa-se para cumprir a ordem do seu senhor. Com a velocidade de um relâmpago ele atravessa as nuvens e desce na Galiléia. Maria chora solitária em seu quarto quando, de súbito, uma luz alaranjada invade o ambiente. Maria observa o anjo com espanto, enquanto ele lhe transmite a mensagem:


“Fêmea estéril, acalma-te.
O todo-poderoso me enviou,
teu ventre ele encherá. 
Embora estejas em dor, 
grande alegria receberás.
O próprio Criador 
a ti visitará.
Alegra-te Maria, alegra-te! 
O filho de Deus à luz darás! 
Grandes nações ele regerá!
Aguarda Deus, 
aguarda o Criador, 
breve a ti ele virá!
Alegra-te Maria, alegra-te!”



O ódio e a dúvida abandonam o coração de Maria. Ela agarra o anjo e beija-lhe a boca como agradecimento, pois ele é o portador de uma mensagem extraordinária. O anjo sacode as asas e voa orgulhoso por ter sido beijado pela futura mãe do filho de Deus. Maria prepara suas vestes mais sensuais para receber a visita do Senhor. Ela tranca a porta do quarto pelo lado de dentro para que José durma na carpintaria, como é seu costume.

Satisfeito, Deus observa tudo do seu alto trono, ele bate três palmas e rapidamente entram no salão real vários anjos. Serviçais de Deus, esses anjos de pele morena entram ordenados em duas filas impecáveis. Os que se aproximam do trono pelo lado direito carregam vários tipos de tecidos e joias: túnicas do Chipre e da Pérsia, braceletes de ouro cravejados de pedras preciosas da Índia e tornozeleiras de marfim da terra de Kush. Os que se aproximam do trono pelo lado esquerdo carregam vários tipos de cosméticos, muitos perfumes da Arábia e tintas para cabelo do Egito. Os anjos sobem ao trono e paramentam Deus com as relíquias mais belas do mundo. Um grande espelho romano é colocado diante do Senhor quando todos os adornos estão prontos. O todo-poderoso olha para suas vestes e joias resplandecentes e sorri ao ver seus cabelos e sua barba muito bem penteados. O cabelo, pintado de vermelho pelas tintas egípcias, e a barba, de amarelo, emprestam a Deus um ar de irresistível sedução.

Maria se esforça para parecer o mais atraente possível, pois não tem vestes ou cosméticos luxuosos. Ela lava seus cabelos longos, negros e lisos com essências aromáticas e massageia sua pela suave com um creme que ganhou da sua prima Izabel, que diz ter usado o produto em uma situação semelhante. Maria é pura alegria, ansiosa pela visita do todo-poderoso. José tenta entrar no quarto, mas, ao perceber que a esposa trancou a porta, ele volta para a carpintaria e prepara um leito com pó de serra. O esposo de Maria não estranha o desconforto, está habituado. À meia-noite, Maria sente uma agitação no ventre e abre a janela para contemplar a noite. Uma luz dourada espalha-se pelo quarto e arremessa a mulher na cama. A esposa de José vê surgir acima dela um homem de grande beleza e poder, o brilho de suas vestes causa-lhe enorme excitação. Súbito, como a explosão cáustica de um meteoro na floresta, Maria sente uma energia imensurável penetrar-lhe o útero. A consciência dela é somada às mentes de inúmeras fêmeas ancestrais. A partir de agora, ela não é uma só, mas várias.


No Éden, o fruto provei, 
presente da bela serpente,
e com meu homem o partilhei. 
Eis o alvorecer e a mente.

Pelo cruel Ares seduzida
caio na armadilha do meu esposo, 
ao ter a liberdade garantida 
oculto-me do ferreiro rancoroso.

Para derrotar Seth-malvado 
liberto Osíris do seu negro fado. 
Dou à luz Hórus falcão-criança 
e com ele virá o sol-vingança.


Em seu coração profundo, Maria compartilha as visões e as experiências de várias eras. Ela é todas as mulheres do mundo, grandes e pequenas, belas e feias, sábias e tolas, ricas e pobres. Seu pensamento é um manancial de cores e sensações. Deus sorri ao contemplar sua obra e, a balançar seu cabelo vermelho, ascende aos céus. José, que percebe o tumulto no quarto, arromba a porta. Dentro do quarto ele vê uma mulher belíssima, de vestes reluzentes e exibindo o ventre germinado. A voz da mulher soa como o murmúrio de uma correnteza serena:


                           José, José, José!
                           Oh José!
                           Fui fertilizada,
                           meu útero está cheio de graça.      
                           Deus me visitou agora,
                           a mãe do seu filho serei.   
                           José, José, José!
                           Oh José!
                           Onde está tua alegria?
                           Por que tens o rosto cansado
                           E os olhos cheios de tristeza?
                           Ah José, me respondas?


José corre até a janela e olha para fora. Ele vê um homem envolto em luz dourada voar rumo às estrelas. A voz de José tem o som da serra que trabalha em madeira podre:


Ah, maldito traidor! 
Ah, maldita traidora! 

Roguei a Deus para
teu ventre receber a cura.
Fui eu quem orei por ti, mulher!! 
Ah, maldita traidora!
Ah, maldito traidor!
É assim que sou recompensado  
        pelo meu trabalho?
pela minha fé? 
pelo meu amor?
por desejar o bem? 
por desejar saúde?

por desejar um filho?

Ah, maldito traidor!
                 Ah, maldita traidora!



José abandona a casa aos prantos, Maria não tenta impedi-lo, ele precisa ficar sozinho. Ele deve compreender as razões de Deus, a vontade divina. Maria acaricia a barriga proeminente e pensa na bondade de Deus, em como são justos e sábios os caminhos do Senhor.

José corre para fora da cidade, as torres de Nazaré miram a abóbada azulada da noite e a traição esmaga-lhe o coração. Ele sobe uma colina e fita com fúria as estrelas. O carpinteiro grita:


Deus, Deus, Deus! 
Oh Deus!
Traidor!
Maria, Maria, Maria! 
Oh Maria!
Traidora!

Meus dois maiores amores 
me traíram!
Os únicos tesouros que tinha 
me traíram!

Por quê?
Não sou justo?
Ah Deus, eu a amo, 
mas tu a roubaste! 
Traidor!
O que fiz para desagradar-te? 
Eu, humilde carpinteiro,
tu, senhor do universo. 
É covardia, Deus,
é covardia.
Esta é tua justiça?
É o que recebo por adorar-te? 
Traidor!
Traidora!!



Uma estrela despenca da abóbada escura. Um anjo, de túnica rasgada, aproxima-se de José. Espantado, o carpinteiro nada fala, nada move. A voz do anjo é o farfalhar das folhas de uma palmeira:


Bom José, acalma-te, 
o Senhor me enviou. 
Tu és bom José,
tu és justo.
Eis a mensagem de Deus:

“Meu filho, bom filho, 
não te desesperes. 
Eu te amo,
Maria te ama. 
Ela estava infeliz, 
a tua oração ouvi
e curei tua esposa. 
O que fiz de errado? 
Não a agradei?!
Ela está feliz José, 
volta para casa. 
Meu filho, bom filho, 
perdoo tuas ofensas, 
não sou traidor.
Abandona toda raiva,
volta para casa.”



José ergue uma pedra que três homens fortes ergueriam com dificuldade e a joga na cabeça do anjo, a pedra tritura-lhe os ossos e seu cérebro celestial espalha-se pela colina mundana. José pisa no cadáver do anjo e grita para Deus:


Eis minha resposta, Deus! 
Não verás em mim
a brandura de um manso cordeiro! 
Não verás em mim
um fiel tolo conformista! 
Olho por olho,
dente por dente! 
Prepara-te, traidor, 
arrancarei tuas barbas
e cuspirei na tua face hipócrita! 
Eu era fiel e justo à ti,
em tuas mãos me entreguei. 
Eu era fiel e justo à ti,
e isto, isto é o que ganhei? Prepara-te, traidor,
sê corajoso e me enfrenta. 
Mas se medo de mim tiveres 
e recusares à terra descer,
aqui embaixo teu filho esperarei
e o sangue de tua prole derramarei! 
Olho por olho,
dente por dente!



José observa a alta abóbada estrelada, à espera de um sinal de Deus, pois ele deseja que o criador responda a seu desafio. A noite cede à alvorada e não há resposta. José está confuso, ele matou um anjo, desafiou Deus e ameaçou matar seu filho. “O que há com o criador?” - pensa José - “Será que ele prepara algo terrível para me castigar?”
Além da cúpula celeste, em seu alto trono, rodeado de anjos, Deus cochila.
Maria acaricia a Barriga proeminente e pensa na bondade de Deus, em como são justos e sábios os caminhos do Senhor. Uma luz emana do Ventre de Maria, a luz transbordante do filho de Deus. Um anjo surge sobre a casa de Maria e voa pela cidade a clamar:


Eis o herdeiro de Deus
que tira o enfado do mundo! 
O filho do todo-poderoso 
breve nascerá!
O salvador da humanidade 
breve nascerá!
Alegrai-vos, puros de espírito. Alegrai-vos, justos e fiéis.
É  chegado o grande momento, 
o nascimento do redentor.
É  chegado o grande momento, 
resultado de um grande amor. 
Escutai a ordem de Deus:
“Que Maria seja louvada,
celebrai a bendita entre as mulheres. 
Que Maria seja louvada,
festejai e cantai seu nome. 
Meu filho breve nascerá! 
Meu filho breve reinará!”


O povo entra no quarto de Maria e, entre cantos e saudações, a carrega para fora de casa. Uma liteira é providenciada e Maria é carregada pelas ruas de Nazaré; das sacadas chovem pétalas de rosas enquanto dançarinas e músicos acompanham a ruidosa comitiva. Maria sorri, que maravilhoso destino Deus lhe concedeu, a música de flautas e tambores percorre toda a cidade. Ela ergue o véu que cobre a liteira e vê que o povo a carrega na direção do templo de Deus. O povo sobe a escada de jade a carregar a liteira e as cúspides cintilantes das torres do templo brilham com uma chama azulada. Anjos, a revoar em círculos ao redor do templo, tocam suas trombetas de bronze, suas túnicas vermelhas e douradas são um deleite para os olhos da multidão extasiada. Uma chuva cor de fogo cai sobre a cidade. No interior do templo, Maria desce da liteira, auxiliada por dois jovens gregos, e beija os pés da enorme estátua de Deus. A grande estátua de ouro ganha vida por alguns instantes, seus olhos de diamante brilham e sua boca de prata fala, a voz é o eco de um sino de ouro:


Maria, magnífica,
quão grande é meu amor por ti. Levanta-te, oh graciosa!
Sobe no trono, 
assume teu lugar,
honra meu nome, bela Rainha. 
Serás eternamente um exemplo 
para todo meu povo.

Maria, magnífica,
quão grande é meu amor por ti.



Maria sobe sete degraus de mármore, cujas bordas são cravejadas de rubis. Ela observa o trono, enquanto um raio de luz divina atravessa uma das janelas altas do templo e envolve o assento de madeira. "Que grandiosa benção" - pensa Maria - "tudo é tão belo e puro e eu sou a mais gloriosa das mulheres." Maria senta no trono e uma nostalgia balsâmica toma-lhe o coração, fluindo das lembranças das milhares de fêmeas ancestrais que a compõem. Maria chora e suas lágrimas escorrem como a seiva de um antigo cedro. O troar da voz do povo estremece as fundações do templo:


Ave formosíssima!
Bendita és tu entre as mulheres, 
Bendito é o fruto do vosso ventre. 
Ah, mãe poderosa,
rogai por nós. 
Ah, bela Rainha, 
rogai por nós.
Miserável é aquele. 
que não te conhece. 
Miserável é aquele
que desconhece o milagre, 
o milagre que vive em ti!


Então o povo entrega-se ao prazer da adoração. Comerciantes fenícios distribuem vinho à vontade, dançarinas núbias agitam-se pelo templo ao som da música alegre tocada por liras gregas, uma fila de nobres romanos aproxima-se do trono com a oferta de ouro e pedras preciosas para a Rainha magnânima. Um escultor ateniense, embriagado de cerveja egípcia, entalha uma estátua de Maria em mármore.
Por nove dias e noites a alegria estrondosa das festas reina no templo. Na noite do nono dia, o ventre de Maria torna-se radiante como o sol e ela enrijece seu corpo, agarrando-se no trono. Novamente uma nostalgia balsâmica toma-lhe o coração, a experiência de inúmeras mulheres, grandes e pequenas, belas e feias, sábias e tolas, ricas e pobres. O próprio Deus surge nas nuvens acima do templo e toca sua trombeta, a música é grave, com notas longas e profundas. Dentro do templo ecoa o choro de um bebê, entrecortado pelas notas triunfantes da música tocada por Deus. O ventre de Maria deixa de brilhar e murcha rapidamente, mas, em suas mãos, um bebê radiante como o sol é erguido e revelado a humanidade. Deus aparece ao lado do trono e, sorrindo para Maria, toma a criança em seus braços e beija-a ternamente. Deus olha para o povo e sua voz ecoa como a gargalhada do oceano profundo:


Oh, meu filho!
Que dia maravilhoso! 
Alegrai-vos fiéis, 
chegou o salvador.
Tereis agora um grande líder. 
Devo subir para meu reino, 
mas Maria cuidará do menino. 
Que alegria,
meu coração quase explode. 
Ah, pequeno redentor,
eu o nomeio 
JESUS CRISTO.


Deus devolve a criança para Maria e ascende aos céus, acompanhado pelas palmas e cantos jubilosos dos fiéis. Lágrimas de cedro banham a face de Maria. “É tudo que sempre desejei." - pensa a Rainha - "uma bela criança, um filho adorado. Cuidarei dele com todo meu amor.”


II – O CONFRONTO


Há anos José vaga pelos desertos do mundo. Ele esteve na Babilônia e mesmo as filhas do prazer mais experientes não conseguiram aliviar seu coração turbulento. Quando o sol posiciona-se no centro celeste, José senta-se no alto de uma duna, disposto a falecer. Por várias horas, o sol castiga-lhe o corpo inerte e olhos antigos o espreitam, olhos que caíram do céu há muito tempo.

Ele se aproxima de José com a fragrância do vinho, uma brisa repentina. Suas asas têm o som das Asas do Sonho, o brilho da lua refletida em um lago. O fulgor de seus olhos ofusca o sol, sem ferir a visão. Seus cabelos cobrem-lhe o corpo, cachos de trigo e seda. Sua voz espalha-se suave e sibilante, neve que serpenteia no topo da montanha:


Dor terrível,
por quê não fui curado? 
Injustiça,
onde estão meus direitos? 
Covardia,
o lobo devora o cordeiro. 
José, eu te compreendo,
teus sentimentos me entristecem. 
Não te entregues
ao deserto inclemente. 
Não te entregues
à vontade inimiga.
Mostra teu orgulho e força, 
banha-te no sangue inimigo! 
José, eu te compreendo, 
pega minha mão.

Te darei vigor,
te darei esperança. Encontrarás a paz 
após a tempestade.
José, eu te compreendo,
pega minha mão.


José estende a mão debilitada e o calor do bálsamo subterrâneo percorre-lhe o sangue. O urro de um leão escapa-lhe da garganta. A ira é uma correnteza represada em seu peito. José grita:


Aço e sangue! 
Aço e sangue! 
Dá-me mais força! 
Dá-me mais ódio!
Incendiarei as estrelas, 
sangrarei o sol e a lua, 
beberei o sangue inimigo! 
Aço e sangue!

Aço e sangue!
É a hora, 
Maria pariu, 
Deus sorriu.
O sangue do cão vadio 
caminha pela terra.
O sangue do cão vadio 
será derramado.
Terei minha vingança! 
Terei minha paz!


Diante de José, uma armadura, um elmo e uma espada emergem da areia. Uma voz cai como neve sobre José:



José, eu te compreendo, 
aceita meus presentes, 
aceita minha ajuda. 
Tens todo o direito,
tens toda a razão. 
É a hora,
o garoto cresce, 
Deus sorri.
O sangue do traidor 
está ao teu alcance. 
O sangue do traidor 
derramarás contente. 
Luta José, luta, 
conquista tua paz. 
Olho por olho,

dente por dente!



José veste a armadura peitoral, coloca o elmo brilhante, cujo penacho vermelho ondula terrível, ergue o gládio e ruge como um leão ferido:


Aço e sangue! 
Aço e sangue! 
Olho por olho, 
dente por dente!
Terei minha vingança! 
Terei minha paz!


Há anos Jesus Cristo cura doentes e endemoninhados. A fila de necessitados que percorre as ruas de Nazaré e entra no templo de Deus é longa. Aos pés da estátua de mármore de Maria, Jesus promove suas curas. A mãe o observa orgulhosa. "Meu filho querido," - pensa Maria - "meu coração quase explode de satisfação." Jesus cura um chinês mudo, que começa a cantar imediatamente, e vê um homem com armas e postura de soldado aproximar-se. O homem, de armadura brilhante, não respeita a fila. Jesus o repreende:


Há ordem e respeito!
Os oprimidos aguardam na fila, 
a cura exige organização.
Há ordem e respeito! 
Todos terão sua vez, 
aguarde como os outros!


O estranho ousado não obedece, ele aproxima-se de Jesus e o encara. A expressão do filho de Deus é pura indiferença e um brilho profundo encerra o enigma em seus olhos. Em seu trono, Maria reconhece o estranho e, emocionada e temerosa, corre ao encontro dele dizendo:


José, José, José! 
Oh José!
Quanta saudade! 
Deixaste-me preocupada, 
meu coração quase explodiu. 
Mas por que essa espada? 
Por que esse olhar furioso? 
Ah José, me respondas?


José coloca a ponta da lâmina do seu gládio no pescoço de Jesus e grita:


Afasta-te traidora! 
É a hora,
terei minha vingança! 
Terei minha paz!
Aço e sangue! 
Olho por olho, 
dente por dente!


Maria fica imóvel, o povo prende a respiração. Uma nuvem abre-se no céu, uma luz azulada invade o interior do templo e uma cimitarra aparece na mão direita de Jesus.
Além da cúpula celeste, em seu alto trono, rodeado de anjos, Deus sorri. 
O filho de Deus golpeia a espada de José, salta para trás e grita:


Bom José, acalma-te, 
o que fiz de errado? 
Eu te amo, 
Maria te ama. 
Abandona toda raiva, 
volta para casa.


José ergue seu gládio e golpeia Jesus, mas o jovem bloqueia o golpe com a cimitarra. Faíscas rubras saltam das lâminas, o clangor dos golpes ecoa pelo mundo. José fere o ombro de Jesus e o sangue do messias rega o piso do templo. José sorri, mas o filho de Deus talha sua coxa e o sangue vermelho escuro do carpinteiro também jorra sobre o piso do templo, mesclando-se ao líquido vermelho azulado que é o sangue do filho de Deus. O suor escorre metálico de suas faces furiosas. Maria, assustada e imobilizada, exclama:


Deus, Deus, Deus!
Oh Deus!
Perdoa esse infeliz.
Dá pra ele um remédio, 
alimenta esse furioso.
Deus, Deus, Deus!
Oh Deus!
Perdoa esse infeliz.



Além da cúpula celeste, em seu alto trono, rodeado de anjos, Deus cochila.
Faíscas rubras saltam das lâminas, o clangor dos golpes ecoa pelo mundo. Uma nuvem negra acumula-se sobre o templo e um vento venenoso sopra pelas estradas, matando viajantes e animais. Chove sangue sobre a cidade de Nazaré. No Egito, os faraós levantam-se de suas tumbas e caminham para o Nilo. Anjos caem dos céus, seus corpos são perfurados pelas pontas das torres do templo e uma chama azulada consome suas asas. A cimitarra de Jesus corta o penacho do elmo de José; o carpinteiro chuta a barriga do filho de Deus e corta uma mecha da sua barba. Maria grita petrificada, o aço ecoa terrível pelo templo e pela mente do povo estático. Uma peste de morcegos sai das cavernas do planeta e contamina o gado do mundo. A água do Nilo transforma-se em lava e os faraós são carbonizados. Uma antiquíssima serpente desperta no coração da terra enquanto o mundo treme desesperado.
Faíscas rubras saltam das lâminas, o clangor dos golpes ecoa pelo mundo. A espada de José risca a face de Cristo e o sangue do messias goteja, em tons alienígenas, sobre o piso do templo. Jesus sente a ira e o valor inflamarem seu coração e enfia sua cimitarra no pescoço de José; o sangue do carpinteiro, irremediavelmente humano, escorre sem salvação. José tomba com a lâmina atravessada no pescoço macio, mas a faringe está intacta e, entre golfadas de sangue, ele fala:


Maldito!
Eu, humilde carpinteiro, 
tu, filho de Deus.
É  covardia, Jesus, 
é covardia.
Esta é tua justiça?
É   assim que sou recompensado

pelo meu trabalho? 
pela minha fé? 
pelo meu amor?

por desejar o bem? 
por desejar saúde? 
por desejar um filho?


Jesus retira o elmo da cabeça ensanguentada de José, beija-lhe a fronte e fala aos soluços:


Ah, destino horrível! 
Nem todas as vidas
que estas mãos salvaram 
são capazes de justificar 
o crime que cometeram!
Tens razão José, 
que justiça é esta? 
Tens razão José, 
que messias é este?


Além da cúpula celeste, em seu alto trono, rodeado de anjos, Deus acorda.
Uma brisa restauradora sopra pela terra. Maria ajoelha-se perto de José com as lágrimas doloridas a escorrer pela face, retira a cimitarra do pescoço do antigo companheiro, abraça o moribundo, beija-lhe apaixonadamente os lábios e chora:


Só pode ser um pesadelo José! 
Onde estão aquelas tardes
em que o som da tua serra 
alegrava nossos corações?
Tu recordas?
Recordas aquela noite azulada
em que comemoramos nossa união? 
Lembra-te do dia
em que construímos nosso lar? 
Das promessas de amor?
Das promessas de eternidade? 
Onde está tua vida?
Só pode ser um pesadelo José!



José puxa Maria para si e beija-lhe os lábios pela derradeira vez. Suas últimas palavras ecoam pelo templo como a voz do corvo numa tarde de inverno:


Ah Maria...
Maldito é o amor que sinto por ti. 
Por quê me traíste?
Não te agradei?
É isto que mereci?
Meus dois maiores amores 
me traíram!
Os únicos tesouros que tinha 
me traíram!
Adeus Maria...
Adeus Amor...
Não consumei minha vingança, 
mas encontrei a Paz...


A vida abandona o corpo de José, o choro de Maria é uma dor ancestral, a angústia de incontáveis mulheres, de incontáveis eras. Jesus abraça sua mãe e seus choros mesclam-se formando uma música perturbadora, inconsolável. O povo, confuso e angustiado, abandona o templo. Mulheres e homens, doentes e endemoninhados, voltam às suas rotinas. Eles não querem envolver-se nos assuntos divinos. Quem é capaz de compreender o raciocínio de Deus ou a vontade divina? Quem pode entender a justiça e suas implicações?

O oceano profundo continua insondável, as ondas depositam conchas e estrelas na praia. O coração da terra pulsa a devorar antigos reinos. No leito do Nilo repousam faraós carbonizados. O sol e a lua continuam a competir pela soberania dos céus. Morcegos dormem em cavernas espalhadas pelo planeta.

Além da cúpula celeste, em seu alto trono, rodeado de anjos, Deus boceja.